terça-feira, 31 de maio de 2011

Quem Te Traz as Cores - Capítulo 1

Alexandre Barbosa da Silva

Capítulo 1: A Grande Coincidencia – Parte 1



- É... eu descobri onde ele está, ou pode estar, por acaso. A minha avó meio que deixou escapar durante uma discussão com a minha mãe.

Era esquisito que Douglas estivesse falando de coisas tão pessoais com um estranho, que ele conhecera a apenas alguns minutos. Estranho este que estava sentado ao seu lado num avião. Mas afinal, que mal teria em falar essas coisas para uma pessoa que ele nunca mais veria? O problema era contar a sua mãe, Cristina, que ele estava viajando para a Europa para encontrar seu pai sumido a tanto tempo, que era tão desconhecido quanto o seu vizinho de poltrona, ou amigo “dose-única”, como dizem em Clube da Luta. Sua mãe não sabia que ele sabia, é claro. Não fazia parte de seus conhecimentos que ele chegava em casa da faculdade um certo dia, e foi obrigado a parar na porta ao ouvir a voz exaltada de sua avó. Lembrava-se como se estivesse ouvindo naquele momento:

“... você não aprende? Primeiro foi o Rafael, que teve um filho com você, e depois foi pra França! Você tem que me ouvir, eu nunca me enganei com essas coisas.”

Por sorte ela se enganou quanto ao último padrasto de Douglas, que era o motivo da discussão. Lembrar-se deste dia o fazia se sentir um pouco desnorteado.

- Senhorita, poderia me trazer mais um champagne, por favor? – pediu à comissária de bordo.

O plano de estar ali foi arquitetado e começou a ser posto em prática um ano depois daquele dia. Viajar para a Europa sem que Cristina suspeitasse de seu real objetivo demandou muito tempo, pesquisas e principalmente omissões, pois ele sabia que se ela soubesse, o teria convencido a não ir.




Uma garota de cabelos coloridos (um pouco vermelhos, um pouco louros), compridos atrás, mas que iam ficando mais curtos a medida que se aproximavam de uma franja repicada, estava absorta em sua leitura de O Hobbit. A literatura fantástica a deixava sem ar, pois era do tipo que gostava de fugir da realidade de vez em quando. Principalmente da realidade de estar a sei lá quantos mil metros de altitude. Ler era a forma que havia encontrado para se distrair quando viajava de avião. E também para não pensar em muitas outras coisas sem tanta importância... a vida, por exemplo, embora esta posição despreocupada em relação a própria existência tenha sido fruto, principalmente, da influência exercida pelos livros que lia.

Porém, a vida a distraiu da fantasia quando sem querer, captou uma conversa na poltrona da frente:

- Mas se a sua mãe não sabe que está aqui procurando seu pai, quem lhe contou onde ele está?

- É... eu descobri onde ele está, ou pode estar, por acaso. A minha avó meio que deixou escapar durante uma discussão com a minha mãe.

O coração já normalmente agitado da garota de cabelos coloridos agitou-se ainda mais. Se ela não fosse ela, não teria acreditado no que acabara de ouvir. Mas como ela era, de fato, ela, apenas fechou o livro, e abriu um sorriso.

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